É possível ir além do dois!
setembro 8, 2017
  • Ilustração por Emília Santos

Você se sente sexualmente atraíde por homem ou por pênis? Por mulher ou por vagina?

Recentemente eu li um texto no Facebook sem autoria reconhecida que problematiza o modo como pessoas cis e trans descrevem suas sexualidades e a partir dessas descrições justificam ou organizam suas relações. A argumentação, bastante coesa, vai denunciando a fragilidade da barreira que separa predileção de violência e expõe que o tal do gosto pessoal não está livre de influências sociais. Aparentemente escrito por um transhomem, a queixa é individual e estrutural, vinda de deslegitimações discursivas que revelam um sistema transfóbico onde pessoas trans não transgelitalizadas são preteridas e tidas como indesejáveis. Gostei muito da abordagem e compartilhei em minha linha do tempo com algumas considerações que reproduzo abaixo com importantes complementações inéditas para este site, pois acredito se tratar de um tema discutido com frequência e costumeiramente conduzido de maneira desonesta ou ingênua. Por exemplo, ao denunciarmos que identidade de gênero não é determinada pela genitália e, por conseguinte, a atração sexual de alguém não pode referenciar-se exclusivamente a ela, entende-se que estamos forçando pessoas cisgêneras a se relacionarem com pessoas transgêneras sob a égide do combate à transfobia, enquadrado uma opressão como suposto objeto de vitimismo. Qual seria a dificuldade de depreender a primeira proposição sem que ela nos encaminhe para a consequência da segunda? Onde está o ruído, na informação ou na interpretação? É a isso que me empenho a pensar com vocês!

Falar sobre diversidade de gênero e sexualidade pela lente de vivências trans é trazer constantemente pessoalidade ao texto. Se tem uma coisa que a vivência travesti tem me ensinado é o quão duras são as análises que levam em consideração o genital em primeira instância. A sexualidade humana é complexa, vasta, ambígua – nós é que, em traduções simplórias, reunimos e resumimos tudo ao lado esquerdo, direito ou meio e fazemos isso porque o próprio gênero, antes entendido como sexo, também é organizado de maneira rasteira, oito ou oitenta. Para além dessa leitura pequena sobre nossos comportamentos e desejos, mesmo se tomássemos como base as categorias vigentes, as coisas não seriam tão óbvias assim. Há quem considere o genital um pormenor quando se trata de relações afetivas e sexuais. Há quem o coloque como pré-requisito delas. O que há de verdade entre a discussão de gosto e violência é que, sim, ninguém é obrigado a interagir com um genital que não se sente confortável, mas importa atentar para o caráter construído desse desconforto, que pode ou não ter alguma fundamentação de outra ordem. Uma mulher de pênis e um homem de vagina confundem sexualidades alheias porque essas categorias de sexualidade não foram pensadas para além do binarismo cisgênero.
Sexualidade também deve ser observada em sua dimensão cultural; cada rótulo vem com modelos precisos do exercício do tesão e da afetividade, com quais corpos e de quais maneiras. Tudo que vem de uma construção pode ser desconstruído e reconstruído. Encarar a relação sexo x gênero como um dado posto pela naturalidade é equivocado. É preciso reconhecer que a atração sexual não se restringe ao órgão genital, mas à corporalidade, onde esse órgão é apenhas um raio do espectro. Quando olhamos para alguém, nos atraímos ou não primariamente pelo que acessamos visualmente somando às expectativas construídas em cima dos modelos visuais, cada agente com seu grau de importância. No entanto, como poderiam essas expectativas (genitais), muitas vezes nem pensadas por já existir uma naturalização prévia da cisgeneridade, ultrapassar o corpo como um todo?
Eu demorei para entender e mais ainda para conseguir aplicar esse entendimento em minhas relações, mas o tempo somado à prática foi minimizando os efeitos dessa socialização genitalizante, biologizante, transfóbica e binarista mais rápido do que o esperado. Por muitos anos a construção da masculinidade hegemônica, primeiramente me imposta ao constatarem meu pênis, segundamente colocada como objeto de desejo, permeou minhas relações. Não bastava me dizer que sou homem, eu precisava ainda corresponder ao modelo masculino esperado do homem de verdade, aquele que está perfeitamente adequado aos padrões sociais, culturais e políticos de sua categoria de gênero. Uma vez rejeitado esse modelo, já era tarde, suas configurações já estavam encasteladas em mim; sabia que não era e não conseguiria ser homem, muito menos esse tipo de homem alfa, mas ao me descobrir atraída por homens, só poderia perceber atração por esse modelo, já que tudo o que eu conheci de masculinidade era dessa forma, todo o resto parecia ilegítimo. Essa educação preconceituosa vai tatuando em nós desde muito cedo quem devemos ser e por quem devemos nos atrair e mesmo quando supomos romper essas leis, muitas vezes ainda estamos inseridos na lógica dessa doutrinação subliminar. Na medida em que a sexualidade é percebida, é também construída ao passo que os valores do sistema direcionam nossas experiências. Pensar para fora desses valores depois de toda uma vida marcada por eles é difícil e será mais ou menos lento para cada sujeito por questões subjetivas, de modo que cada um escolherá manter ou reavaliar suas disposições para as relações. A grande questão é; por que alguém precisaria fazer isso?
Pelo simples fato de que essa socialização é violenta, não somente para as pessoas que são exotificadas por ela, mas para as próprias pessoas que só se permitem vivenciar uma versão redutiva da própria sexualidade.
Demorei muito tempo para conseguir me relacionar com homens trans, mesmo vindo também de uma vivência trans. Por mais que eu os reconhecesse como homens, não me permitia enxergá-los como desejáveis por possuírem uma vagina. Assim me ensinaram no meio hétero e também no meio gay, já que não existe espaço livre de misoginia por natureza, e isso se materializava em meus pensamentos e se borrava com meus desejos. Para que sejamos capazes de superar essa socialização precisamos admitir que há um problema nela. Abscindir a norma é fundamental para que tenhamos agência em nossas decisões.
Hoje estou vivenciando uma relação transcentrada e percebendo a potencialidade dessa discussão no nosso meio. Acredito que a possibilidade da transcentralidade de uma relação tem muito a contribuir com esse debate e talvez quando essas informações forem maturadas por nós eu lance mão de um artigo sobre o tema, mas por enquanto posso afirmar cabalmente que sou muito feliz por ter conseguido me desfazer dos juízos de valor que limitavam meus afetos, me sinto muito mais liberta e plena por sentir melhor o meu corpo e a diversidade dos demais corpos. Sou travesti, namoro um homem trans e não somos menos heterossexuais por isso. Temos uma vida sexual e afetiva extremamente saudável e livre de desconfortos por sermos trans. Muito pelo contrário, o marcador da transgeneridade que nos une atua como facilitador de diálogos.
Compreender essas questões me faz perceber com mais lucidez o que sinto e quero com cada vez menos manchas das expectativas sociais.
E graças a isso estou vivendo o momento mais especial da minha vida.

Ninguém é um pênis ou uma vagina ambulante antes de ser gente.

Masculinidades e feminilidades não são definidas pelo que cada um traz entre as pernas.

A atração erótica e romântica estão para além do sexo.

Sexualidade é mais que genitalidade.
Livre-se das amarras do cis-tema enquanto há tempo.

 

Ou seja por elas devorade.

Yuna
Yuna
cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

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