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Às vezes eu não entendo o motivo de algumas coisas terem tanta repercussão e outras não terem. Ou melhor, talvez eu entenda, e por isso fique tão decepcionada com algumas dinâmicas de redes sociais, em especial, o Facebook, no que se refere à forma como a informação circula e é tratada. Para construir conhecimento, precisamos de algo para além da mera circulação de informações e acontecimentos do cotidiano. Vou citar sobre meus próprios textos, os dois últimos que eu escrevi para o Blogueiras Feministas.

Escrevi um texto chamado “Quantos livros de mulheres trans será que a Chimamanda já leu?” e foi compartilhado no Facebook 569 vezes. Um número notável. As condições de produção deste texto se deram a partir da polêmica que a fala de Chimamanda suscitou sobre a ideia de que mulheres trans tiveram uma socialização masculina e por isso, teriam privilégios masculinos.

Será que as pessoas estão mais interessadas em saber sobre as questões políticas e existenciais de pessoas trans? Afinal, se o texto foi compartilhado mais de 500 vezes, talvez seja sinal de que estejamos tendo visibilidade. Ou não. Ou que tipo de visibilidade é essa? Sob quais vieses de circulação? Toda visibilidade é vantajosa para a nossa causa?

Outro texto que foi publicado logo após este, chamado “Quais são as experiências de mulheres trans quando estamos falando de “socialização”?”, em que eu discuto propriamente mais detalhadamente sobre as questões que motivaram a polêmica com Chimamanda, não teve o mesmo sucesso. Foi compartilhado apenas 20 vezes no Facebook.

Talvez então as pessoas não estejam assim de fato tão interessadas em saber sobre as vivências e experiências de pessoas trans. Talvez as pessoas (cis) só estejam interessadas por pessoas trans pelo viés do sensacionalismo, da “polêmica” vazia e superficial, do exotismo, da negação do reconhecimento de nossas identidades e direitos. Talvez só haja grande interesse por pessoas trans quando somos objeto do discurso de pessoas cis famosas.

Quer dizer: a polêmica sobre mulheres trans e a “socialização” gera repercussão até a página 2. Até quando uma mulher trans começa a discutir mais detalhadamente a questão. Enquanto o debate se manter na superficialidade da polêmica, haverá repercussão; quando uma mulher trans começar a teorizar sobre a complexidade da questão, parece não haver tanto interesse de circulação de textos.

Leia também:

http://blogueirasfeministas.com/2017/03/quantos-livros-de-mulheres-trans-sera-que-chimamanda-ja-leu/

http://blogueirasfeministas.com/2017/03/quais-sao-as-experiencias-de-mulheres-trans-quando-estamos-falando-de-socializacao/

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