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Fonte : Brujulaintersexual.wordpress.com

Esse é um texto pessoal, escrito de alma sobre o que ando pensando sobre a militância Intersexo e a intersecção com a questão LGBT e alguns questionamentos que emergem diante de minhas vivências e questionamentos.
O primeiro ponto é: Eu me vi intersexo primeiro. Quando eu peguei aquela carta nas mãos* e fui pra internet e ela me apresentou a síndrome que tenho como condição intersexo, me situei nesse ponto, mas a questão LGBT sempre foi uma questão pairante, eu achava que era bissexual, mas não tinha muita certeza, os dois universos eram novos pra mim, eu tive que investigar muito, hoje ainda vivo numa penumbra na questão da orientação, mas uma coisa que sei que sou. INTERSEXO.
O Segundo ponto é: LGBT´s deveriam abraçar a causa,mas….percebo na militância Brasileira um certo medo, um certo incômodo com a nossa presença. Sim , nossa questão é biológica, mas no caso da genitália ambígua em que pode ou não haver um sexo mais visível que outro, cirurgias cosméticas que adequam gêneros de crianças intersexo podem afetar de forma irreversível a identidade de gênero da pessoa na vida adulta e isso pra mim enlaça o apoio LGBT, porque assim como a sociedade não aceita o amor do mesmo sexo ou corpos que se veem com outra identidade, podemos integrar a sopa de letrinhas que vocês são. Lutar para que indivíduos possam ter a oportunidade de decidir sua cirurgia genital com inteira consciência, deveria ser uma causa abraçada por vocês, somos minoria, mas somos muitos e já invisíveis somos contados como parte do corpus LGBT, porque não vencer a guerra entre biologia e identidade e orientação e juntar-se a nós nessa luta?
O Terceiro ponto: A militância Intersexo está nascendo e potente. Temos várias teses e dissertações de pessoas diádicas (não-intersexo ) falando sobre nós, mas a academia já pode contar com uma voz militante e histórica que me orgulha muito, sabe Dionne Freitas no mestrado da Universidade Federal do Paraná querendo estudar a intersexualidade é pioneiro e babado. Além de ser Trans e Intersexo, Dionne e eu fazemos parte de um grupo de Intersexos no Brasil que está precisando sair da penumbra e lutar, tornar nossas reinvindicações audíveis e tomar espaços e falas legitimando nossas necessidades , lutas e resistência. Precisamos que os indivíduos intersexo sejam empoderados e possam se unir a vozes como as nossas além de Michelle Bittencourt, Alex Bonotto, Luiza Freitas, no sentido e na ação de habitar e coabitar espaços de militância Trans e LGBT que sejam resistentes a nós e mostrem que não estamos sós e que precisamos ser ouvidos e de aliados na luta contra a classe médica e seu preconceito que quer nos “resolver” na sala de cirurgia e se livrar de nós como “pessoas problema”. Não somos problema senhores, somos resposta a questão de gênero, há mais no degradê entre homem e mulher que o ser humano possa imaginar, ocupamos o degradê, deu pra perceber? INTERSEXOS quando vamos sair do escuro daquela sala fria e fazer barulho em meio a praças , hospitais, mesas , rodas de conversa e outros espaços, quando vamos vencer o frio e buscar o sol e seus raios que libertam e adentrar os espaços que nos foram fechados?
O quarto ponto: Precisamos de aliados cis e Trans. A causa é nobre, urgente e necessária, somos poucos conhecidos até porque não temos dados para precisar quantas são as pessoas intersexo no Brasil e quantas não são. O que sabemos segundo dados de organizações não-governamentais intersexo ao redor do globo somos muitos, invisíveis e muitas vezes a procura de iguais para se conectar. Somos vistos como aberrações, andarilhos em meio a sociedade perguntando há alguém igual a mim? Há, mas é preciso suporte financeiro, jurídico, artístico e humano para nos ajudar a nos lançar no mundo e estender a mão ao intersexo inseguro que habita um mundo que nos vê como anomalias, impotentes como bebês nas mãos tecnicistas de equipes médicas que esquecem que um dia suas decisões irreversíveis marquem nossas histórias para sempre. Queria ver os comentários respondendo, sim estamos aqui, o que podemos fazer. Se você é um desses que tal se manifestar comentando o que pode fazer e se deseja se aliar a nós?
O quinto e último ponto: Esse ponto me incomoda muito. Porque a classe médica não consegue se questionar sobre a necessidade real da cirurgia de pessoas intersexo? Já ouvi dizer que há poucas aulas sobre nossa condição e muitas delas já contaminadas com um certo moralismo aliado a uma ética que diz só existir 2 gêneros e nada mais. Será que o Elitismo do ensino de vocês é tanto que chega a cegar os olhos ao ponto de esquecer que 1,7% da humanidade é intersexo e que nossos corpos desafiam a moral que quer declarar ser Deus criador de dois gêneros ou será que na realidade o criador não é sua própria criatura que usa a religião e veste a carapuça de moral e penetra no olhar tecncista e consegue tirar de vocês o pensar no humano e na sua diversidade como caráter natural do composto ecodiverso que é a Terra e seus habitantes, inclusive plantas e animais que nunca viram uma faca usada para corrigi-los por serem Intersexo? Se a biologia atesta a diversidade como necessária para o equilibrio do planeta, porque não dar bem-vindo a corpos diversos e enfileirar-se na luta por um mundo de respeito a diversidade. Até quando vão continuar como Deuses, Juízes e oficiais de justiça para atestar uma mentira que a própria natureza atesta de que a intersexualidade não é um erro e nem um aparato de escárnio ao social imposto pela cultura, mas vidas que são únicas e importam? Até quando?

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Amiel
Amiel
Intersexo, Sociólogo, Pesquisador. Pessoa em construção permanente.

1 Comentário

  1. […] Cadê o intersexo, mundo? – Amiel – TransAdvocate […]

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