Pessoas trans: a pedra no sapato do discurso psi e jurídico e a questão do Laudo
setembro 6, 2017

Via Flickr Wonderlane

 

Quando viemos ao mundo já existia toda uma estrutura muito bem estabelecida que nos informava, desde muito cedo, através de discursos, modelos, situações, referências, leis, produtos artísticos, etc, em diversos espaços de socialização como casa, escola, trabalho e ambientes de lazer, entre muitas coisas, que gênero é um dado natural consequente das características biológicas que trazemos. Aprendemos com aqueles que aprenderam antes de nós e nos reproduziram acriticamente para que possamos dar seguimento ao processo. Esse é o modo de operação de um sistema. Nos disseram que sexo são apenas dois, o resto é anomalia e como tal merece ser corrigida. Nos disseram e acreditamos. Em cima desse suposto binário sexual fomos e somos forçados a edificar nossas identidades em um mundo onde até os espaços onde depositaremos nossos excrementos são generificados sob os mais suspeitos argumentos. Tudo já parece muito abusivo, mas não para por aí, é preciso ainda estar em perfeito ajuste com o polo destinado a cada corpo. Não há escolha, não há processo de identificação ou chance de reconhecimento, é pura consequência da natureza ao qual nenhuma criatura escapa. Assim sendo, das duas possibilidades de existência, apenas uma nos é permitida. O passaporte é o genital, ou pelo menos o que ele representa.

Perceber-se imune a essa força da natureza traz dúvidas sobre a veracidade desses dados e a partir daí se inicia um processo de questionamento e refutação na medida em que outras possibilidades de existências são pensadas e experimentadas, mesmo que clandestinamente a princípio. Para quem sempre se reconheceu dentro da norma de gênero, pensar fora dela para poder reavaliar essa estrutura com outros pontos de partida (epistemologias) parece uma tarefa impossível, eu sei, afinal, foram anos de doutrinação e castração mental que datam do nascimento, mas é possível, asseguro. É possível compreender o caráter sociocultural do gênero. É possível se dar conta de que a partir dessa categoria inúmeras identidades, efeitos de processos biopsicossociais individuais, se afirmam. E como gênero é construção pela qual subjetividades se entendem e se explicam, múltiplas são as contingências. Pensá-las como binárias, ao contrário do que apregoam desesperadamente os fundamentalistas, inclusive no próprio meio trans – porque toda diversidade decentraliza o poder hegemônico – é muito mais complexo do que o contrário. Só admitimos que toda uma variedade de estilização de corpos e identidades se resumem a duas categorias porque cristalizamos esse discurso através da força da repetição, famoso fenômeno do absurdo naturalizado por osmose.

Pessoas vêm repensando e reconstruindo o gênero em diversas culturas desde muito antes de possuirmos um corpus intelectual que organizasse e categorizasse essas dissidências, a exemplo dos dois-espíritos norte-americanos, os Mahu da Polinésia, as Hijras indianas, os Xanith Omani, as virgens juramentadas da Albânia, os maridos femininos africanos. Essas figuras sociais não necessariamente estão alocadas em uma lógica binária, se configurando em setores e posições próprias quase sempre. Volto a bater nessa tecla porque sinto uma carência enorme por parte do ativismo trans de um foco nas mazelas que o binarismo traz para nós, homens e mulheres transgêneros, travestis e não-binários.

Estejamos atentos à retórica cisnormativa colonial. A única maneira de se compreender gênero como um constructo e afirmá-lo como binário é pensá-lo como consequência de um dimorfismo sexual e isso é simplesmente regredir as discussões ao ponto inicial onde o determinismo biológico ou o essencialismo imperam.

Só seremos totalmente libertos, tendo as violências de gênero minimizadas, quando tivermos maturidade para (re)pensar essas categorias para além da edificação dicotômica-estereotipada que nos ofertam. Não podemos comprar e muito menos revender essa lógica que violenta a todos ao passo que trabalha com a inspeção e o enquadramento compulsório. Podemos ser homens, mulheres e outras inúmeras possibilidades sem que uma vivência invalide a outra.

É possível ir além do dois!

Yuretta
Yuretta
cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

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