“Não sou contra pessoas trans, sou contra o sistema que cria pessoas trans”
Janeiro 17, 2018

Foto do Flickr de See ming lee. Cedida por licença Creative Commons

Não acredito que precisaria escrever isso, mas vamos lá. Tem uma página chamada “ativismo gay autônomo” que já falou muita besteira sobre transgeneridade, no maior estilo GGGG, ressoando discurso radfem também sobre não se misturar com a letra T da sigla, como se a inclusão das questões de identidade de gênero fossem irreconciliáveis ou antagônicas com as de sexualidade, como se uma luta não tivesse implicada na outra. A gente sabe que esses discursos fazem essa exclusão a partir do reforço de estigmas e estereótipos em relação a pessoas trans, a gente sabe que essas pessoas querem excluir pessoas trans do discurso e irão se utilizar de artimanhas para tanto.

Pois bem, a estratégia desse tipo de movimento tem sido em estabelecer uma espécie de olimpíada de opressão no seguinte aspecto: se a sociedade odeia mais determinada coisa, é porque lá é que estaria a “verdadeira” luta. E bem, essa página foi la dizer que os “afeminados” não incomodam a sociedade, o que incomodaria mesmo a sociedade seriam dois homens másculos se beijando. Estratégia muito semelhante é feita pelo radfem, dizendo que mulheres trans seriam engrenagens da sociedade patriarcal em oposição as verdadeiras, e únicas, oprimidas, as mulheres cis, ou melhor, de verdade.

A lógica é a seguinte: a sociedade só pode “odiar de verdade” afeminados ou gays masculinos, e quem a sociedade odeia mais é onde residiria a verdade, a luta verdadeira. Em oposição, quem é “odiado menos” é colocado no lugar da assimilação, da alienação, da mentira. Isto é, se trata de estabelecer com isso qual seria a “luta verdadeira”, a luta das afeminadas, das trans, ou a luta dos gays másculos – como se as lutas fossem antagônicas nestes termos, em termos de verificação de uma verdade em detrimento da outra.

É óbvio que de cara encontramos várias inconsistências nessas alegações dessa página. Primeiro, não precisaríamos decidir se a sociedade odeia mais homens másculos que se beijam do que afeminados para determinar qual é a luta mais legítima. Segundo, temos muitas evidências para sustentar justamente o oposto, que são os afeminados e mulheres trans e travestis que estão justamente numa posição de maior vulnerabilidade. Terceiro, pela “lógica”, se homens másculos que se beijam atraem mais ódio do que homens afeminados, quer dizer então que dois homens afeminados se beijando então “ganhariam” a olimpíada de opressão? Afinal de contas, um gay másculo só incomoda a sociedade em companhia de outro homem, ao contrário da gay afeminada que choca a sociedade pelo simples fato de existir. Bom, a partir daqui a gente percebe os inúmeros problemas que essas perspectivas nos colocam, da mesma forma que a necessidade da superação dessa forma de pensar, que nos coloca numa posição de competição dentro do discurso da militância.

A página se esqueceu de lembrar que na ditadura, travestis eram presas por serem travestis, ou seja, por serem lidas como travestis, apenas por isso. De que travestis tem dificuldade na inserção no mercado de trabalho em virtude de serem femininas, isto é, que pessoas perdem oportunidades e sofrem injustiças e exclusões sociais em virtude de serem “caricaturas”, como a página designa. A página também se esquece de enunciados que tanto circulam em nossa sociedade como “tudo bem beijar dois homens, mas se vestir de mulher é demais”, ou “não me interessa o que você faz entre quatro paredes, mas dar pinta é demais”. A página parece ignorar que um dos maiores medos do imaginário conservador diz respeito à “ideologia de gênero”, isto é, o medo de que homens se identifiquem com o feminino e mulheres se identifiquem com o masculino, o que culmina no repúdio às identidades transgêneras de forma exemplar. A página também ignora a importância histórica da visibilidade das pessoas trans e das demais que questionaram papeis rígidos de gênero em épocas ainda mais desfavoráveis e reacionárias e que portanto, resistiram e abriram caminho para a possibilidade das nossas formas de luta e resistência hoje em dia.

A própria alegação da página na verdade depõe contra ela mesma. Ela diz que a sociedade heteronormativa celebraria homens afeminados em programas de TV… sob a forma da chacota. Como o fato de que gays afeminados serem alvos de chacota poderia provar que eles são mais aceitos do que os gays másculos? Não deveria ser justamente o contrário? Teríamos que nos deter melhor nessa argumentação tão equívoca.

A alegação de que afeminados seriam mais aceitos na sociedade justamente prova o quanto.. eles não são aceitos, pois são vistos pelo viés da chacota, do não sério. O que essa página na verdade não consegue enxergar, pois ela se sustenta a partir do seu próprio ponto cego, diz respeito à questão da feminilidade em homens e de mulheres trans e travestis. A análise da página é equívoca porque ela se localiza a partir de um ponto cego em relação à transfeminilidade (isto é, a reivindicação de uma identidade feminina por corpos e sujeitos nos quais ela não é esperada, ou seja, em pessoas designadas como homens/meninos ao nascer), na exata medida em que ela naturaliza essa posição trans quanto ao feminino como estigmatizante. A página reproduz esse discurso na medida em que toma como evidência que a transfeminilidade seria mais “aceita” se utilizando para tanto de argumentos que deveriam sustentar uma posição oposta à que a página adere – isto é, que a transfeminilidade de fato não é nada aceita em nossa sociedade porque é vista como objeto de deboche.

Ativismo gay autônomo, eu convido a vocês a estabelecerem uma outra noção em relação a pessoas femininas designadas como homens ao nascer – seja o gay afeminado ou a mulher transexual, para além do estigma e da culpabilização. Eu convido a vocês a abandonarem noções estigmatizantes sobre a transfeminilidade. Eu convido a vocês a refletirem sobre a transfeminilidade a partir de outra lógica, a partir de uma lógica de escuta e alteridade que não procure operar a partir da lógica da deslegitimação com base nesta procura no que a “sociedade heteronormativa” aceitaria ou deixa de aceitar, como se isso pudesse ser critério de verdade para nossa militância que se propõe precisamente crítica desse sistema hétero e cisnormativo. A transfeminilidade não se resume às formas distorcidas e estigmatizantes pelas quais a perspectiva masculina dominante julga dizer quem nós somos de verdade, isto é, a noção de que existiria, como a página mesma coloca, uma “caricatura do homem gay”, como se a feminilidade de homens gays pudesse se circunscrever a uma noção de “caricatura de si mesmo”.

Ativismo gay autônomo, citar casos midiáticos de homens afeminados e mulheres trans não é argumento válido para desqualificar nossas lutas, para tentar provar alguma coisa em relação a nossas identidades femininas. Aliás, não deveria provar nada além da nossa não inserção em espaços legitimados como o mercado de trabalho, a nossa dificuldade no ingresso e permanência em instituições que vão desde a escola até a universidade. Deveria provar nada além da necessidade do estabelecimento de vínculos de união e aliança, ao invés de exclusão.

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