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Fonte http://defensoresdanatureza.com.br

         Ser ativista implica em lidar constantemente com o mundo de diversas militâncias, dentro e fora das redes sociais, pela própria condição sinérgica de determinadas pautas. Essa bolha, formada por múltiplas correntes de pensamentos, tantas quantas permitem a complexidade da diversidade humana, possibilita para quem consegue lançar um olhar de fora, mesmo estando dentro, observar o modo como determinados dispositivos de controle social operam entre os próprios oprimidos, que se tornam também agentes, em maior ou menor nível de consciência, dos sistemas que os excluem. A puerilidade da rixa lembra um passatempo também infantil; Quem nunca brincou de Batata Quente?
O cenário é exatamente esse, as minorias em um círculo segurando a bola da culpabilização, uma passando para a outra, até que alguém de fora determine com quem ela ficará, eliminando um por um progressivamente.

Em se tratando especificamente de questões de gênero, tenho observado cada vez mais a reprodução de uma lógica opressiva que no seio de movimentos supostamente desconstruídos se pretende subversiva. Mas subverte o quê e para quem? Vejamos:

Tudo começa quando o discurso de direita – encarnado na figura do bolsominion, do fundamentalista religioso, etc –  e até mesmo alguns de esquerda, a exemplo do esquerdomacho, dizem que feminista, em especial a radical, não é mulher de verdade, apenas uma criatura desocupada, peluda e frustrada por falta de sexo ou louça para lavar, em contraposição ao modelo legítimo, a bela, recatada e do lar, submissa, dependente, que honra a moral, os bons costumes e sua natureza passiva dada por Deus ou pela genética. A ordem foi dada, o círculo está formado, os participantes começam a rotacionar responsabilidades. O jogo começa.
A feminista radical, enquanto enfrenta esse discurso, passa a bola para a mulher trans/travesti, culpando-a pelo estereótipo de gênero que cai sobre as demais mulheres, alegando que ela não é mulher de verdade porque gênero não é sentimento, não é status, não é fantasia, é materialidade que se constitui de outras maneiras (BUCETA!).
A mulher trans, por sua vez, repassa para a pessoa não-binária, atribuindo toda a confusão acerca do discurso de transgressão do gênero a ela, apontando-a como responsável por confundir a sociedade com sua identidade diferente e insinuando que isso acaba reforçando o pensamento de que gênero é sentimento (e tudo o mais que a rad utiliza para deslegitimá-la, só que agora o jogo virou, assim como a rad replica a lógica do Bolsominion e acha que está inovando no mais alto grau de progressismo).
A trans N-B, sem ter para quem passar, devolve a bola para quem a entregou, retrucando que a pessoa binária não faz grandes tensionamentos ao dispositivo de gênero, só sai de uma categoria normativa para outra tão normativa quanto e que isso não é “transgredir”, mas tão somente transitar para se inscrever em privilégios cisgêneros através de passabilidade.

Ninguém quer segurar a batata quente, mas não percebem que eles mesmos, em conjunto, é que a esquentam. Não se preocupam em descascá-la para averiguar seu interior,  perscrutar sua origem, quem produziu, quem entregou e sobretudo quem vai se alimentar dela às custas de quem a esquentou.

Boa parte das categorias supracitadas pretende em primeira instância demarcar o território da “mulher de verdade” para então existir a “mulher de mentira”. Tudo isso é desculpa para chegar em um único ponto: Quais vidas são dignas e quais são descartáveis.

E boa parte acredita também que está fazendo revolução.

Yuretta
Yuretta
cantora, compositora e poetisa transgênera. Baiana, natural de Salvador, apaixonada pela transdisciplinaridade, aborda em seu trabalho artístico a generificação dos corpos e suas performatividades. Graduanda em Artes pela Universidade Federal da Bahia, é ativista dos estudos de gênero e diversidade, área de concentração de suas pesquisas e produções.

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